terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

A Flor e a náusea - Mal invisivel


Preso à minha classe e a algumas roupas,

vou de branco pela rua cizenta.

Melancolias, mercadorias, espreitam-me.

Devo seguir até o enjôo?

Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:

Não, o tempo não chegou de completa justiça.

O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.

O tempo pobre, o poeta pobrefundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.

Sob a pele das palavras há cifras e códigos.

O sol consola os doentes e não os renova.

As coisas. Que triste são as coisas, consideradas em ênfase.
(...) Porém meu ódio é o melhor de mim.

Com ele me salvo e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.

Uma flor ainda desbotadailude a polícia, rompe o asfalto.

Façam completo silêncio, paralisem os negócios,garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.Suas pétalas não se abrem.Seu nome não está nos livros.É feia.

Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde e lentamente passo a mão nessa forma insegura.

Do lado das montanhas, nuvens macias avolumam-se.

Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.É feia. Mas é uma flor.

Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.


Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

"A vida é bela e cruel, despida.. tão desprevenida e exata.."



"Izzi: Ele disse que se eles cavaram o corpo do pai para cima, ele teria ido. Eles plantaram uma semente sobre seu túmulo. A semente se tornou uma árvore, e seu pai tornou-se uma parte dessa árvore. Ele cresceu na madeira, na flor. E quando um pardal comeu fruta da árvore, seu pai voou com as aves


a morte era estrada de seu pai para espanto. É o que ele chamou. O caminho para a admiração"