quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Somos todos imortais. Teoricamente imortais, claro. Hipocritamente imortais. Por que nunca consideramos a morte como uma possibilidade cotidiana, feito perder a hora no trabalho ou cortar-se fazendo a barba, por exemplo. Na nossa cabeça, a morte não acontece como pode acontecer de eu discar um número telefônico e, ao invés de alguém atender, dar sinal de ocupado. A morte, fantasticamente, deveria ser precedida de certo “clima”, certa “preparação”. Certa “grandeza”.
Deve ser por isso que fico (ficamos todos, acho) tão abalado quando, sem nenhuma preparação, ela acontece de repente. E então o espanto e o desamparo, a incompreensão também, invadem a suposta ordem inabalável do arrumado (e por isso mesmo “eterno”) cotidiano.
(...)
O acontecer do amor e da morte desmascaram nossa patética fragilidade.
(...)
eu também não acreditava mais que a morte existisse, naquele ou neste momento, quando preciso me embriagar um pouco com urgências de vida porque se considerar a cada minuto a possibilidade da morte – então paro imediatamente de viver. Fico de olhos arregalados, imóvel, à espera do poço previsto.Como quem muda um canal de televisão, continuei vivo. 
(...)
Agora, no fim da noite de domingo, longe do colo morno do amor, a morte visita o apartamento e fico pensando em como recuperar minha imortalidade após este próximo ponto final. 

http://semamorsoaloucura.blogspot.com.br/2006/10/em-memria-de-lilian.html
Ela é toda essa arte que grita em mim, toda essa arte que não quer calar. Toda essa arte que transpira os poros, suspira o peito, grita os olhos, e dóis nos dedos, músculos, pés. É toda essa arte que colore os papeis, paredes e corpo, é a agulha que fura dedo, pano, coxa. Todo blues, jazz, mpb, clássico, maracatu, barimbau. Silêncio. É toda cor, aroma e textura. Toda luz de velas, incenso, amor, prego, lixo, cola. Toda vida que me suja o papel, e toda a natureza - Morta.