quinta-feira, 28 de junho de 2012

(...)
Quero dizer que te amo só de amor. Sem ideias, palavras, pensamentos. Quero fazer que te amo só de amor. Com sentimentos, sentidos, emoções. Quero curtir que te amo só de amor. Olho no olho, cara a cara, corpo a corpo. Quero querer que te amo só de amor. 

(...)

Não há limites para o prazer, meu grande amor, mas virá sempre antes, não depois da excitação. Meu grande amor, o infinito é um recomeço. Não há limites para se viver um grande amor. Mas só te amo porque me dás o gozo e não gozo mais porque eu te amo. Não há limites para o fim de um grande amor. 
Nossa nudez, juntos, não se completa nunca, mesmo quando se tornam quentes e congestionadas, úmidas e latejantes todas as nossas mucosas. A nudez a dois não acontece nunca, porque nos vestimos um com o corpo do outro, para inventar deuses na solidão do nós. Por isso, a nudez, no amor, não satisfaz nunca. 
Porque eu te amo, tu não precisas de mim. Porque tu me amas, eu não preciso de ti. No amor, jamais nos deixamos completar. Somos, um para o outro, deliciosamente desncessários. 
O amor é tanto, não quanto. Amar é enquanto, portanto. Ponto.

(...)
 

Roberto Freire

quarta-feira, 6 de junho de 2012

FARTURA E CARÊNCIA (Clarice Lispector)



Mas o pior é o súbito cansaço de tudo. Parece uma fartura, parece que já se teve tudo e não
 se quer mais nada. Cansaço dos Beatles. E cansaço também daqueles que não são. 
Cansaço inclusive de minha liberdade íntima que foi tão duramente conquistada. Cansaço de 
um amar o outro. Melhor seria o ódio. O que me salvaria dessa impressão de fartura - é 
fartura ou uma liberdade de que está sendo inútil? - seria a raiva. Não um tipo de raiva 
amorosa que existe. Mas a raiva simples e violenta. Quanto mais violenta, melhor. Raiva dos 
que não sabem de nada. Raiva também dos inteligentes do tipo que dizem coisas. Raiva do 
cinema novo, por que não? E o outro cinema também. Raiva da afinidade que sinto com 
algumas pessoas, como se já não houvesse fartura de mim em mim. E raiva do sucesso? O 
sucesso é uma gafe, é uma falsa realidade. A raiva me tem salvo a vida. Sem ela o que seria 
de mim? Como suportaria eu a manchete que um dia saiu no jornal dizendo que cem crianças 
morrem no Brasil diariamente de fome? A raiva é a minha revolta mais profunda de ser 
gente? Ser gente me cansa. E tenho raiva de sentir tanto amor. Há dias que vivo de raiva de 
viver. Porque a raiva me envivece toda: nunca me senti tão alerta. Bem sei que isso vai 
passar, e que a carência necessária volta. Então vou querer tudo, tudo! Ah como é bom 
precisar e ir tendo. Como é bom o instante de precisar que antecede o instante de se ter. Mas 
ter facilmente, não. Porque essa aparente facilidade cansa. Até escrever está sendo fácil? 
Por que é que eu escrevia com as entranhas e neste momento estou escrevendo com a ponta 
dos dedos? É um pecado, bem sei, querer a carência. Mas a carência de que falo é mais 
plenitude do que essa espécie de fartura. Simplesmente não a quero. Vou dormir porque não
 estou suportando este meu mundo hoje, cheio de coisas inúteis. Boa-noite para sempre, para 
sempre. Até sábado que vem. E não me respondam: não quero ouvir a voz humana. E se 
suporto a minha voz se despedindo é porque ela piora de muito a minha raiva.
Só uma raiva, no entanto, é bendita: a dos que precisam.

sábado, 2 de junho de 2012

Ela era muita poesia pra mim, sempre foi
Era pura arte, era abstrata, subjetiva
Gostava de sentir e se guiar pela lua. Já eu gostava de olhar o sol
Eram ritmos diferentes,
Era uma dança descompassada, desconexa
Mas freneticamente amável