quarta-feira, 6 de junho de 2012

FARTURA E CARÊNCIA (Clarice Lispector)



Mas o pior é o súbito cansaço de tudo. Parece uma fartura, parece que já se teve tudo e não
 se quer mais nada. Cansaço dos Beatles. E cansaço também daqueles que não são. 
Cansaço inclusive de minha liberdade íntima que foi tão duramente conquistada. Cansaço de 
um amar o outro. Melhor seria o ódio. O que me salvaria dessa impressão de fartura - é 
fartura ou uma liberdade de que está sendo inútil? - seria a raiva. Não um tipo de raiva 
amorosa que existe. Mas a raiva simples e violenta. Quanto mais violenta, melhor. Raiva dos 
que não sabem de nada. Raiva também dos inteligentes do tipo que dizem coisas. Raiva do 
cinema novo, por que não? E o outro cinema também. Raiva da afinidade que sinto com 
algumas pessoas, como se já não houvesse fartura de mim em mim. E raiva do sucesso? O 
sucesso é uma gafe, é uma falsa realidade. A raiva me tem salvo a vida. Sem ela o que seria 
de mim? Como suportaria eu a manchete que um dia saiu no jornal dizendo que cem crianças 
morrem no Brasil diariamente de fome? A raiva é a minha revolta mais profunda de ser 
gente? Ser gente me cansa. E tenho raiva de sentir tanto amor. Há dias que vivo de raiva de 
viver. Porque a raiva me envivece toda: nunca me senti tão alerta. Bem sei que isso vai 
passar, e que a carência necessária volta. Então vou querer tudo, tudo! Ah como é bom 
precisar e ir tendo. Como é bom o instante de precisar que antecede o instante de se ter. Mas 
ter facilmente, não. Porque essa aparente facilidade cansa. Até escrever está sendo fácil? 
Por que é que eu escrevia com as entranhas e neste momento estou escrevendo com a ponta 
dos dedos? É um pecado, bem sei, querer a carência. Mas a carência de que falo é mais 
plenitude do que essa espécie de fartura. Simplesmente não a quero. Vou dormir porque não
 estou suportando este meu mundo hoje, cheio de coisas inúteis. Boa-noite para sempre, para 
sempre. Até sábado que vem. E não me respondam: não quero ouvir a voz humana. E se 
suporto a minha voz se despedindo é porque ela piora de muito a minha raiva.
Só uma raiva, no entanto, é bendita: a dos que precisam.

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